Samanta Bullock – Modelo de superação

foto_cartaoNatural de Osório (RS), a modelo brasileira Samantha Bullock, 36, teve uma infância tranquila. Jogava tênis, aliás, na sua família todos jogavam, e sonhava tornar- se modelo profissional. “Passava as férias em Santa Catarina, em Bombinhas e Camboriú; em julho, a gente costumava viajar para Buenos Aires, Argentina”, recorda. Aos 14 anos, entretanto, foi vítima de um acidente com arma de fogo que a deixou paraplégica. A vontade de viver foi mais forte e a ajudou a superar todos os limites visíveis ou não. Ela voltou a jogar tênis e às passarelas, e também passou a representar o Brasil em mundiais. Hoje, em paralelo a muitos projetos, lança a primeira agência inclusiva no Brasil. “A agência VisABLE People já existe na Inglaterra, agora, estamos recrutando modelos no País para trabalhar tanto aqui como fora”, diz. Ela reside em Londres, há sete anos, com o marido Mark Bullock, responsável pelo tênis adaptado na International Tennis Federation (ITF). Além do esporte e dos desfiles, dá palestras, workshops e oficinas, com o objetivo de contribuir para a melhoria da qualidade de vida das pessoas com deficiência. Também divulga algo que é a sua paixão, o crudivorismo ou alimentação crua. “Ao mudar a minha alimentação, eliminei mais de 50% da medicação que tomava para dor. É um conceito que muda a vida inteira”, atesta. Nesta entrevista, ela fala do acidente que limitou parte de seus movimentos, da importância do esporte na inserção social do portador de deficiência, acessibilidade, entre outras questões.

Como foi superar a fatalidade de 22 anos atrás?

O mais difícil foi superar a dor crônica. Todo mundo acha que viver em uma cadeira de rodas é difícil. Apesar de toda dificuldade que a cadeira traz, ela é quase que uma tábua de salvação. Ajuda a levantar, ir para a cozinha, a realizar tarefas que sem ela não seria possível. Não a vejo como um aspecto ruim, pelo contrário. Mas conviver com dor é muito complicado.  A bala alcançou a coluna e queimou a medula, que é um nervo central. É como um nervo de dente; você tem dor, só que vai ao dentista e ele resolve. No caso da medula não há nada que se possa fazer. As medicações são muito fortes e dá sono. Foi preciso entender que a vida já não era a mesma, não por causa da cadeira de rodas, mas devido à dor.

Essa dor é por causa da hipersensibilidade?

Não, eu tive hipersensibilidade na perna esquerda, mas foi só nos primeiros oito meses. Demora quase um ano para o corpo se adaptar e ver o que volta e o que não volta de movimento. A hipersensibilidade sumiu, a dor crônica eu sempre tive, saí do hospital com ela. Na UTI, tomava morfina de cinco em cinco horas, mas quando você vai para casa, eles suspendem a medicação, aí tem que aguentar a dor.

Há uma região do corpo que dói mais?

É a coisa mais controversa, dói a perna que eu não sinto, que não mexo nada. As pessoas diziam “ah, isso é um bom sinal”. Não é um bom sinal, na verdade, quer dizer que vou sentir dor para sempre.

tenisEntre as muitas atividades a que se dedicou está o tênis. Como o esporte entrou na sua vida?

Eu sempre joguei tênis. Após o acidente tentei jogar, mas não consegui. Tentei em uma cadeira normal, não sabia que tinha uma especial. Redescobri o esporte aos 26 anos. Trabalhava no Senado Federal; e na ocasião, chegou um projeto de lei pedindo verba para uma escola de tênis em cadeira de roda. O pessoal falou que isso era impossível. A escola era em Brasília mesmo, perto do Senado. Quando saí do trabalho passei lá para conhecê-la. Encontrei várias pessoas e fiz amizades.

Qual a sua opinião sobre utilizar o esporte na inserção social dos portadores de deficiência?

Ao fazer a pessoa sair de casa, ela vai se movimentar mais, vai se inserir socialmente; e se começar a praticar esporte profissionalmente, mais ainda. Além de permitir que ela faça amizades, brinque, ria, se descontraia.

O que lhe afastou do tênis profissional?

Eu parei de jogar pelo Brasil, no último mundial, aqui na Inglaterra, em 2009. Estava com o meu ombro muito machucado. Não era o primeiro processo inflamatório que eu tinha, sofri por seis meses com outro no cotovelo. Jogava com dor. Quando pegou o ombro pensei “ é a minha vida ou o tênis”. Depois que eu me aposentasse, provavelmente ficaria com sequela; isso ia me atrapalhar no dia a dia, pois preciso muito do ombro, já não tenho as pernas. Decidi me poupar, fazer outro esporte, em que eu não me prejudicasse. No tênis é muita batida, muito impacto.

Como foi o seu processo de adaptação na Inglaterra?

Tirando o meu acidente foi outra experiência que deu uma reviravolta na minha vida. Eu tive que aprender tudo, desde a língua, porque não falava inglês. Tudo era diferente: a cultura, a comida, o tempo, para dirigir, o humor, as questões de cidadania. Eu tive que renascer, reaprender quase tudo, o que poderia e o que não poderia fazer.

Quanto tempo levou para sentir-se inserida nesse contexto?

Há sete anos moro aqui, parece que ainda estou me inserindo. Sempre que vou falar com alguém percebo que o meu inglês não é perfeito; sou uma brasileira que vive em Londres. A fase mais difícil foi a dos dois primeiros anos. Eu dizia: “Nossa, que vontade de voltar para o Brasil”. Mas logo em seguida comecei a trabalhar, tirei a minha carteira de motorista. Já tinha o meu carro, comecei a fazer outras amizades, ainda jogava tênis. Tudo isso ajudou no processo.

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Como foi o seu retorno às passarelas?

Foi incrível. Eu não achava que iria voltar às passarelas, esse era um sonho. Tirando a dor, o fato de eu não poder desfilar mais doía muito. Depois de 12 anos, eu estava com 27, isso ocorreu em 2004, foi algo incrível, uma sensação… Nossa, voltar às passarelas era como se eu estivesse no céu.

Na Inglaterra, você trabalha com uma agência que atende pessoas com todo tipo de deficiência. E no Brasil, tem trabalhado em algum projeto de expansão?Esse mercado no Brasil ainda está começando. Existem vários modelos com deficiência, o que falta são empregadores. Há resistência da sociedade. Ela está aprendendo a lidar com muitas questões. Não são todos os lugares, cidades em que há ônibus adaptado, rampas, acessibilidade, tanto que a gente não vê deficiente na televisão. Quando vê, é alguém que ficou na cadeira de rodas, depois voltou a andar. Não um deficiente para toda a vida. Na São Paulo Fashion Week, maior evento da cidade paulista, há muitas marcas, mas nenhuma traz um modelo com deficiência para a passarela ou mesmo em fotos para catálogos. Nesse sentido, precisamos muito da mídia para falar pela gente, para lembrar as pessoas. Esse é um trabalho diário, de formiguinha.

A Europa oferece um tratamento bastante superior, se comparado a outros países. O índice de portadores de deficiência no Brasil é elevado?

Sim, era 14% quando saí do País. Hoje, deve estar perto dos 20%. A sociedade precisa pensar que todos vão envelhecer. Quando as pessoas ficarem velhas, vão precisar de muleta, andador, cadeira de rodas, principalmente nos casos de fratura, por exemplo, quando quebrarem uma perna. O atendimento preferencial já existe, mas o Brasil tem um pouco mais de 200 anos, já a Inglaterra é um país muito mais velho.

palestraPara qual público você dá palestras?

Todos. Já falei para plateias de grandes empresas, profissionais de todas as áreas, mas o que gosto mesmo é dar palestra para crianças. Elas não têm discriminação, o “pré-conceito”. Querem saber como eu durmo, tomo banho.

Fale de sua relação afetiva com o Brasil diante da problemática de acessibilidade.

Eu tenho a minha família e amigos aí, mas não tenho mais a minha casa. Ela é aqui, em Londres. Então, há momentos em que estou aí e sinto saudades. “Nossa, eu queria ir para casa”. Em relação aos sentimentos, sinto os dois. Por exemplo, quando me dou conta de que construíram uma rampa em uma esquina onde não havia, fico muito feliz. Eu morava em Porto Alegre e me lembro que só tinha um ônibus adaptado na linha que servia o meu bairro até o trabalho. Eu tinha que ligar, e falar a hora que iria para o trabalho, para eles colocarem o ônibus adaptado naquela rota. Hoje, a maioria dos ônibus em Porto Alegre é adaptada. Ao mesmo tempo, há motoristas que agem mal, que não param para o deficiente. Em São Paulo, percebo que alguns hábitos não mudaram, por exemplo, as pessoas continuam estacionando em vagas de deficientes, e utilizam o banheiro preferencial, quando o deficiente vai usar está um nojo. Como faz 22 anos que estou na cadeira de rodas, são 22 anos que observo o Brasil crescer, evoluir.

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Você deposita a sua energia na divulgação do crudivorismo. Quais os seus projetos para o futuro?

Eu faço um canal no Youtube que se chama “Cozinha Viva Sam”. Tem também uma fanpage no Facebook. Faço alguns vídeos caseiros em que ensino algumas receitas, tal como catchup cru. Pretendo profissionalizar o canal, mostrar um pouco da vida aqui em Londres para o deficiente. Há alguns projetos que estão pintando na Turquia. No final de março vou para lá para conversar, mas ainda não posso dar detalhes.

 

Crédito para as fotos: As fotos inseridas no artigo original da revista Kalunga, foram tiradas pela fotógrafa ART Rogélia Heriberta.

Trechos obtidos do artigo original da revista Kalunga publicada em março/2015. http://www.revistakalunga.com.br

Revista Kalunga

Entrevista para a revista Kalunga

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